quarta-feira, 4 de julho de 2012

terça-feira, 27 de julho de 2010

DA SEMENTE AO SOM: A LIBERDADE DO REGGAE

Os escravos foram as sementes do Reggae”, assim discorreu Carlos Albuquerque (1997, p.13) sobre a origem desse fenômeno musical nascido na Jamaica. Encontrada em 1494 por Cristóvão Colombo, a então Xaymaca (terra dos mananciais) tornou-se reduto da cultura africana, religião européia e musicalidade efervescente, sendo influenciada também pelos norte-americanos em meados do século XX. O Reggae nasceu ali, forte, pretensioso, militante, espiritual, e contagiante, mas o seu gênesis nos remonta um passado negro de luta, injustiça e resistência.
Para conhecer a história da Jamaica não precisa se restringir apenas a ler livros bibliográficos, históricos, sociológicos, etc., diria que sua música, especificamente o Reggae, se confunde com a própria história desse povo, basta examinar boa parte das canções oriundas daquele lugar. Albuquerque, em O Eterno Verão do Reggae, também investigou isso, e foi mais além; quis saber o que determinou a entrada do Reggae no mundo Pop (já no século XX), e encontrou como resposta a chegada de Burnin em Miami (EUA) levado por George Terry, a conseqüente gravação de “I Shot the Sheriff” por Eric Clapton, que representou uma hiper-propaganda da musicalidade Jamaicana para o mundo, sem falar dos aspectos peculiares como a religião, militância, que eram traçados por um mesmo tear numa camada tão articulada que os faziam juntos a música, um só elemento inseparável. Inseparável também como a música estava para a política, como a escravidão estava para a vontade de liberdade, e como a África deveria estar para o seu povo longe e cativo.
Falando sobre a música, ou história da Jamaica, e entenda como desejar, é bem oportuno relembrar que a escravidão africana surgiu num contexto comercial muito intenso. No século XV a África foi palco de várias invasões que objetivavam conseguir escravos para suprir os interesses de alguns países expansionistas como: Portugal, Espanha, em seguida Inglaterra, França, Holanda, entre outros. Uma parte desses negros foi levada por espanhóis com destino ao Caribe, quando partiam num navio negreiro e lá tinham seus corpos sendo mortos pouco a pouco, seus sonhos desfeitos, e a esperança praticamente perdida, apenas amenizada pelo sentimento malungo que significava cumplicidade e fraternidade entre os prisioneiros, visto que a viagem era muito longa, e boa parte ficava no caminho. Chegando à “terra dos mananciais” foram subjugados pelos Espanhóis e em seguida pelos Ingleses a partir de 1660.
A escravidão exercida ali não era apenas física, mas também mental, cultural, religiosa, o que não impediu que as sementes vindas do continente negro fossem esmagadas pelo chicotes dos opressores; alguns fugiram para as montanhas e juntamente com os nativos, Arauaques, formaram um grupo social chamado de Maroons, onde puderam viver durante alguns anos nas regiões montanhosas da Jamaica, enquanto os que por força bruta das circunstâncias permaneceram, passaram a conviver e sobreviver dando fôrma e forma à base da cultura jamaicana, que era reflexo da africana. Albuquerque comenta (1997, p.15), que bastava um casamento, um enterro, ou nascimento para que os escravos retomassem seus sentimentos tribais, rituais, suas canções e o vínculo de orgulho pela terra natal. E são esses aspectos culturais dos africanos escravos que passam a ser um importante ponto de encontro e resistência contra a escravidão de uma maioria (escravos) por uma minoria (os ingleses) – isso porque o excesso de zelo britânico no uso de escravos voltou-se contra eles, pois no início do século XIX o número de negros era quase 20 vezes maior do que o de brancos.
Já os elementos religiosos têm uma conotação a meu ver interessantíssima. O que ocorreu foi uma compreensão contextual do cristianismo por parte dos subjugados africanos. A idéia de um povo tirado de sua terra, o retorno a essa terra prometida, a liberdade da mente, o monte de Sião como um lugar geográfico de veneração, foram, por assim dizer, absorvidos de modo contextual por alguns líderes negros, que se identificaram totalmente com o sofrimento do povo judeu, interpretando que esse tal povo escolhido seria os africanos e cuja Etiópia era o lugar sagrado e de onde viria o Messias.
O pulo temporal escravidão-liberdade, subordinação-autonomia, colônia-pátria, nunca foi esquecido nos corredores da história da Jamaica, talvez por isso, as novas gerações advindas nunca deixaram esquecer os sofrimentos dos porões dos navios negreiros de seus ancestrais. E muitos escravos, líderes de escravos, ativistas, religiosos, e militantes do século XX deram sua contribuição no percurso desse salto: Sam Sharpe, Paul Bogle, Alexander Bustamarte, Dr. Robert Love, Marcus Garvey, dentre outros, a atualmente Bob Marley, são algumas referências de destaque. A abolição da escravidão ocorreu em 1838, mas não significou um fim por completo nas idéias de liberdade, apareceram novas terminologias como: Etiopianismo, Rastafarianismo, Holy Piby (Escrituras Sagradas dos Negros), exemplos da intensa busca por liberdade espiritual, justiça, ideologia, profecias, e retorno ao continente africano.
Contudo, mais adiante já no século XX, atuando como elemento articulador e militante, agora dando vida sonora as sementes trazidas nos navios negreiros, eclode na música jamaicana o Reggae, com sua força, munida de toda sua história e propondo uma atitude aos seus ouvintes. Ela seria a síntese de todo passado cativo? Um eco gritado a centenas de anos, mas ouvido apenas no século XX? Como mencionou o escritor Albuquerque, essa música seria o desabrochar das sementes trazidas nos navios negreiros.
O discurso musical era uma arma para transformação da consciência da nação jamaicana e difusão de uma religião de relação afetiva com a ganja. Redemption Song, (Canção da Redenção) música de Marley, sintetiza perfeitamente tudo o que discorremos até agora. Ela aborda o tráfico de escravos, a condição humana, separação e a seguida redenção através do Todo-Poderoso, que passa a ser doador de força e coragem para que as pessoas possam alcançar a liberdade não mais física, e sim mental, convidando todos a unirem-se no propósito de cumprir inteiramente as profecias contidas no livro sagrado – é bom ressaltar que as promessas outorgadas a Israel, povo escolhido por Deus, segundo a compreensão da Igreja Cristã Ocidental (católicos, protestantes, e algumas seitas), são diferentemente contextualizadas nas semelhanças históricas do contexto jamaicano por Marcus Garvey, que passou a ser o principal representante do movimento “De volta para África”, e a ser visto como um profeta, que posteriormente teve seu nome incluído no Holy Piby, sendo ele a encarnação de João Batista. Bob Marley também difundiu o Rastarafianismo, que pregava o repatriamento para a África, a Etiópia como a terra prometida e Haile Selassie, coroado como rei em 1928 e proclamado Imperador da Etiópia em 1930, a encarnação de Deus na terra.
O Reggae tinham uma grande identificação com a cultura jamaicana, uma vez que era composta por um povo oprimido, com notável vocação para o improviso e a sobrevivência em situações de dificuldade. É compreensível da mesma forma ele reflita um lado religioso voltado para o fervor libertário contra séculos de pobreza e opressão, pois essa música também é argamassa de dois extremos convivendo juntos: uma sociedade baseada economicamente na agricultura, e a presença sufocante da industrialização. Aqui abro um parêntese, pois convém citar a longa metragem “Balada Sangrenta”, que fotografa do melhor ângulo possível o cenário em que surge o discurso musical do Reggae: êxodo rural, corrupção policial, pobreza, imposição das gravadoras, e violência.
A canção de Steel Pulse Whorth His Weight In Gold , traz a memória a história da Jamaica. Sua tradução, Valeu seu peso em ouro, fazendo alusão ao mercado de homens realizado com o povo africano, soa como um discurso militante e encorajador aos africanos. A música lembra as cores de bandeira etíope sob a citação de Marcus Garvey, e vai relacionando cada cor a um sentido: “Vermelho pelo sangue que fluiu como um rio, verde pela terra – África, amarelo pelo ouro que eles roubaram, negro pelo povo que eles roubaram”. Nesta, as idéias de Garvey (Movimento de volta para África) são bem expressas, porém sempre apontando os europeus como culpados e buscando a restituição de tudo o que lhes foram tirados, inclusive o respeito e a autoridade. Ressalto que evidentemente ocorreu a cruel sujeição e separação do negro de sua terra, mas também não podemos fechar os olhos para o processo de escravidão ocorrido lá, enquanto resultado de ações do homem branco e também do próprio nativo da África. Essa escravidão começou, diga-se de passagem, entre o próprio povo africano; as tribos brigavam entre si e as populações derrotadas nestas guerras serviam como recompensa. Os derrotados viravam escravos para servirem ali mesmo ou para serem comercializados e embarcados para outros locais. É bom advertir ainda, que eram muitos os caminhos que podiam levar um africano ao cativeiro. Alguns, em momentos de carestia trocavam crianças por alimentos, outros viciados em jogos de azar vendiam os filhos para os escravistas, assim também a própria justiça africana era responsável pelo abastecimento do comboio negreiro, isso porque alguns culpados por crimes eram punidos com a perca da liberdade e encaminhados para os porões rumo ao atlântico. Claro que essa argumentação não exime a crueldade e ganância do europeu em busca de riquezas, mas traz a tona uma discussão longa que fica oportuno discuti-la com profundidade em outro ensejo.
Se os escravos foram as sementes do Reggae, não há dúvidas que o Reggae significou para o mundo o som da liberdade, afinal essa era uma questão central no discurso rastafari, combatente, e revolucionário: “Libertação, democracia de verdade; um deus, um objetivo, um destino”, como cantou Steel Pulse. Talvez essa coisa da liberdade continue levando muitos a questionar até que ponto essa música do terceiro mundo que agitou as estruturas da Billboard e se firmou nas paradas de sucesso dos quatro cantos da terra. Mas a resposta não se encontra em definições breves, afinal esse DNA musical é indubitavelmente recheado de outras composições que a priori não são música. E isso, talvez, é que tenha encantado o mundo a ponto de até hoje se consumir reggae depois de tantas décadas passadas. Albuquerque foi um tanto superficial a meu ver, apontando o uso da ganja e o engajamento político como elementos que dificultaram a entrada do Reggae na indústria fonográfica, enquanto ao contrário, vejo que sem eles a música da Jamaica não iria a lugar algum, ou se não, teria seus poucos minutos de fama como a salsa, bolero, rumba, etc.
Os escravos foram as sementes dessa história, portanto não nos convém compreender o Reggae com nossas lentes contemporâneas, ele vai mais além. Do mento, calipso, ao ska, o Reggae tornou-se mistura orgânica, alquimia de sons e mentes, de forte elo entre passado e presente, e talvez isso o tenha feito peça singular perante as músicas produzidas até então no mundo, se tornando difícil desassocia-lo do de seus ancestrais. Atualmente falar na Jamaica é falar de Reggae, que por sinal é falar de tantas coisas ao mesmo tempo, de guerras, resistência, e vitória. E como diz a canção Whorth His Weight In Gold: “A history no more a mystery”. “Uma história, agora sem mistério”.

sábado, 31 de outubro de 2009

Música Popular no Brasil Colônia

Ao mergulhar nos estudos históricos da música brasileira, percebemos a predominância exclusiva da herança européia nas obras eruditas nacionais, inclusive nos ensinos superiores do país.

Nessa mescla cultural, o branco, o negro e o nativo, contribuíram decisivamente para a formação musical brasileira, porém em menor peso a indígena. Nesse aspecto “influência”, a mais poderosa, por assim dizer foi negra, que trouxe as variedades rítmicas do africano e que se uniram gradualmente ao tonalismo harmônico do europeu.

No período colonial a presença da música era intensa, e mesmo não havendo fonógrafos para confirmar isso, alguns registros comprovam tal tese. Jean de Léry, pastor, missionário e escritor francês, também membro da igreja reformada de Genebra durante a sua fase inicial, relata em seus escritos sobre seu contato com a música nativa, apresentando-a como tão harmônica a ponto de impressionar o ouvinte, o que eao contrário não foi testificado pelo Pe. Manoel de Nóbrega, o qual a acusou de ser diabólica, talvez pelo caráter selvagem e primitivo de se executá-la sonoramente, como também devido às performances ritualísticas. Essa disparidade perceptiva não influiu decisivamente no que tange a preservação satisfatória de uma música essencialmente local, ou pré-colonial.

Ao ocorrer à chegada dos jesuítas na colônia iniciou-se o processo de catequização que culminou simultaneamente numa deculturação, ou seja, a perca gradativa de uma cultura própria em detrimento de outra supostamente superior, não só dos costumes, roupas, ou hábitos indígenas, mas também da musicalidade. Pensar nesse fenômeno nos leva a crer que houve, na verdade, um “escambo cultural”. Enquanto os nativos aprendiam o cantochão e eram “reeducados” tanto na língua quanto na religião, recebiam em troca materiais sofisticados nunca experimentados, como ferramentas, martelos, e utensílios jamais comparados a fabricações da “idade da pedra”. No entanto, essa abnegação da cultura nativa não foi unânime em sua totalidade, e dizer que os jesuítas não consideravam, ou aceitavam os “sons” nativos é uma premissa fatalista, isto devido a registros confirmados nos textos de Mariz os quais informam o desprezo pelo cantochão por parte de alguns missionários que adaptavam textos religiosos a melodias indígenas, embora com o propósito de levá-los o cristianismo.

A implantação do catolicismo no Brasil Colonial era uma preocupação da igreja e fazia parte da campanha de descoberta. Ampliar o domínio cultural e econômico era objetivo certo, e nesse estratagema, a música tornou-se elemento fundamental para todo o processo de conquista.

A ideia do “escambo cultural” não ocorreu efetivamente quanto ao negro, pelo menos explicitamente, isto porque sua deculturação não recebeu nada em troca, há não ser “pão, pau e pano”, representando o fardo do regime, como frisam alguns historiadores. Entretanto com a chegada o escravo na colônia tornou-se mais latente as diferenças culturais existentes no mesmo espaço, visto que os nativos estavam sob supervisão jesuíta, enquanto que os negros demonstravam forte resistência a exemplo dos quilombos – o que cabe oportunamente em outra discussão.

Vejamos algumas contribuições, a primeira vista, da presença africana no Brasil. A primeira trata-se da contribuição do trabalho escravo que garantiu uma expansão econômica proporcionando um desenvolvimento cultural, e a segunda, na participação dos escravos em funções musicais eruditas lideradas pelo homem branco. Embora isso tenha ocorrido, por exemplo na Bahia, não implica dizer que havia igualmente oportunidades para todos o escravo aprenderem música erudita, pois sua utilidade principal era gerar produção para metrópole, o que se tornava mais viável proibir suas próprias manifestações a ter que catequizá-los. As proibições das manifestações musicais e artísticas dos escravos eram evidentes e podiam causar castigos caso fossem executadas - a capoeira era executada por trás dos canaviais de forma que ninguém percebesse, e a noite quando recolhidos na senzala cantavam e dançavam nos seus rituais de origem para amenizar os sofrimentos da escravidão (mesmo havendo esse combate a cultura negra, não houve um êxito para os colonizadores; a chegada abundante de levas de escravos trazia consigo as danças, músicas e costumes nativos que reabasteciam a cultura afro-brasileira).

O mais antigo centro de música erudita do Brasil é a Bahia, isto devido a Salvador ser a capital do Brasil na época (século XVI), no entanto, há escassa pesquisa de caráter musical neste período e local. Alguns escritos trazem informações relevantes como a criação na Sé de Salvador, de dois moços de coro em 1551, como também a função do mestre de capela, em 1559, que era responsável pela parte musical na abadia local, assim como outros registros como a música militar e em festejos da cidade.

A vida musical de Pernambuco também se inicia em meados do século XVI. Na obra Músicos Pernambucanos do Passado, o Pe. Jaime relata sobre a existência de mais de 600 (seiscentos) artistas ligado a música. Nomes como o de Gomes Correia, mestre de capela em Olinda no ano de 1564, o Padre Inácio Ribeiro Nóia, Luiz Álvares Pinto e Joaquim Bernardo Mendonça Pinto, dentre muitos.

No século XVII se inicia a vida musical (na vertente européia) no Pará. A presença da Companhia de Jesus foi principal responsável pela inserção da musicalidade européia naquela localidade. Consta no texto a interessante informação de que em 1735 foi criada uma escola de música que recrutava meninos dotados de aptidões musicais para colaborarem com o coro da catedral. A construção de uma catedral naquele tempo representava, num segundo momento, a implantação musical européia naquele setor.

em São Paulo não houve uma tradição musical tão presente como na Bahia e Pernambuco, claro que devido ao processo de colonização e fixação dos jesuítas. A população de lá era bem menor em relação aos dois maiores pólos do Nordeste. No entanto, em 1611 funda-se a primeira matriz em São Paulo, que segundo Régis Duprat é a partir daí que se inicia a vida musical de São Paulo a qual era modesta e precária ainda, mas que teve grande contribuição em outro momento para a musicalidade brasileira.

No ciclo do ouro Minas Gerais ganhou destaque no Brasil Colônia, e foi justamente nesse período que a música colonial teve sua fase áurea. O fator econômico foi preponderante para que atraíssem diversas camadas para aquela região, dentre muitas os músicos. Muito embora, como frisa o autor, não ter sido possível encontrar prova da existência de nenhum compositor do nível artístico de Aleijadinho. O autor Mariz situa três centros regionais significativos nesse período: Vila Rica, São José Del Rei, e o Arraial de Tejuco onde havia rigorosa fiscalização portuguesa e onde nascera o maior músico mineiro do século XVIII. Nesta localidade há registros de que a grande maioria dos músicos mineiros se fixava ali.

O fim do período áureo da música em Minas Gerais esteve relacionado diretamente ao fim do ciclo do ouro.

Retomando a questão da consciência histórica da musical nacional em detrimento de um eurocentrismo musical vale ressaltar que os jovens brasileiros iam até a Europa estudar música européia e mantinha certo desprezo com a sonoridade brasileira que era caracterizada pelos sons africanos e indígenas. Até o início do século XX eram comuns óperas e recitais de compositores em sua enorme maioria europeus, porém só na metade deste século é que o nacionalismo musical surge definitivamente.